Na próxima primavera

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Abri a janela, deixei a luz entrar. Estou quieto e calado, fingindo que ainda é todo como era antes, quando você ainda estava aqui, quando eu era teu, e pertencias à mim... Mas agora já nem lembras quem sou. Em seus braços o calor que envolve já não é o meu, o toque já não é das minhas mãos. O perfume que gruda em seu pescoço não é o meu, e nem é a mim a quem procuras quando se sentes mal, quando a fraqueza bate e o medo lhe consome. Já nem lembro mais quanto tempo faz. E tudo que preciso nesse instante é esquecer-me do tempo. Porque estou vivendo em meio às lembranças, vivendo aquilo que você decidiu jogar para cima, e depois me culpou por ter medo, mas talvez agora seja tarde demais para eu tentar vencer meu medo. Sim, agora já se fora o tempo, o rio ainda tem água, mas já não é a mesma do mês passado, a chuva ainda cai do céu, mas as gotas já são outras... E você, o que pretende fazer na próxima primavera? Ouvirá os pássaros em um dia ensolarado?

Acho que ainda estarei aqui, relendo seus textos, revivendo de um passado tão vivo e presente, tão constante. Às vezes o passado até respira, pulsa, e quando resolver então falar? Ao menos ele dialoga comigo, enquanto você já nem deve lembrar-se da minha feição. A música mais uma vez toca, e depois torna a tocar. Meus olhos lhe chamam e você permanece longe. Sua voz em minha cabeça diz que me ama, mas que amor, que amor é esse? Não, essa voz não é sua. Imaginação, você sempre pregando peças em mim. Já não devo mais viver desse passado. Queria apenas poder fazer dele meu persente. Não um presente assim, só, mas tornar ele real, com você novamente comigo, e fazer então um futuro melhor, um futuro planejado apenas para você e eu. E sim, sinto sua falta. E você quem nem sente a minha? Na próxima primavera engolirei meu choro, vou beber minhas lágrimas com chocolate quente e ver as árvores florescendo, talvez eu perca minhas lembranças em algum banco por aí, desses que a gente senta só para pensar na vida, e no fim acaba sem nem lembrar o momento ou o porquê que sentamos lá. Talvez tudo que eu precise seja me perder por aí, sem rumo. Na próxima primavera então, quem sabe nela eu sumo.

Então abraçarei minhas lembranças esta noite, vou dormir com elas, secar meu pranto com suas letras, contar meus segredos a sua imagem, sorrir para os momentos bons que tivemos para só então começar a novamente pensar na próxima primavera. Vou aceitar ela de braços abertos, vou encarar ela tão bem e tão pronto, que talvez você já não me reconheça quado quem sabe novamente me ver. E então estarei pronto para viver, sem seu toque, seu seus braços juntos ao meu. Sem minha mania de tentar lhe melhorar talvez você esteja melhor, então estarei melhor com o tempo. Na próxima primavera então estarei vivo. Talvez eu já nem viva com suas lembranças, e até acredito que elas me farão falta no café da manhã, quando notarei que elas não estarão lá para me dar bom dia e conversar, mas estarei melhor, vivo. Serei por fim apenas meu. Na próxima primavera quem sabe, serei por fim um novo eu. Mas agora... Tudo que preciso é dormir. Venham, lembranças, abracem-me, pois ainda não é hora de partir.